09.06
Óbidos
Quase sem palavras pra descrever a beleza do lugar.
Quem me conhece mais de perto sabe que sempre gostei de Ouro Preto, São João del Rey, Tiradentes e Pirenópolis. As construções são lindas, herança dos portugueses, então podem imaginar como estou de queixo caído aqui. Imaginem eu com a boca aberta. Pois então, tou assim.
Como sempre vou caminhando até a rodoviária, os tais 2 km pra ir e 2 pra voltar, mas preciso dar um jeito de expulsar as calorias que venho ingerindo, das comidas e dos vinhos. Realmente resolvi ligar o botãozinho do “foda-se” e bebo e como o que eu quero. Depois das 18h dou uma freada básica, fico no mais leve, mas durante o dia regalo-me.
Dia frio, 13 ou 14 graus. Esse é o clima normal da região no quase verão, assim me disseram. Garoa que nem a de São Paulo. Capa de chuva da Paulinha (brigadinha, nora) e lá vou eu.
Apesar de estar bebendo muita água sinto a boca seca. Sempre. Será do álcool??? Claro que não, é do sol gente!
Há música nos expressos e nos autocarros, mas em volume moderado, não chega a irritar. Outra coisa, aqui não tem ninguém pra colocar as malas no bagageiro, não me lembro se já comentei sobre isso. Você é quem coloca sua mala porque ninguém irá fazer o serviço pra você. No Brasil percebo que tem emprego demais, gente trombando em gente todo o tempo e quanto mais gente tem, mais mole o povo fica. Aqui é comum ver, nas áreas de alimentação dos shoppings, apenas uma pessoa pra atender você. E trabalham rápido. Com a crise precisam estar comprometidos e valorizam o emprego que têm, é o que venho observando.
Estou em paz e é um prazer apreciar a paisagem.
Chego em Caldas da Rainha e o motorista diz que temos 20 minutos e vou andar em volta da rodoviária. Não há nada de muito interessante pra se ver, tiro algumas fotos, volto correndo senão perco o ônibus.
E entramos em Óbidos. Muitos turistas, gente bonita, gente idosa, jovens, de tudo um pouco. A língua que menos se ouve é a portuguesa. Na entrada, um músico. Peço pra tirar uma foto com ele e deixo uma moeda que ele agradece. Ele canta bonito, sinto vontade de ficar ali, mas tenho muito o que ver e entro na cidade que é toda murada, linda, linda. Muitas lanternas grandes, ruas bem estreitas, de pedra. Por duas vezes tropeço e quase racho os bico no chão, não é fácil andar, mas vou embora, de boca aberta. Vai uma bacia aí, por favor, que é pra aparar porque eu babo.
A cidade é cercada por muros medievais. E voltamos aos tempos ma ra vi lho sos de antigamente(pelo menos nesse aspecto) – A partir de 1282 a cidade era o presente de casamento tradicional dos reis de Portugal a suas esposas. O principal doador, D.Dinis, aquele mesmo que deu o palácio real que fica dentro do castelo de Leiria para sua rainha, Isabel. (tou achando que esse tal Dinis era um sujeito danado de gastador). Ele construiu um castelo em Óbidos que é hoje uma das mais caras e prestigiadas pousadas de Portugal. Uma longa rua central corta a cidade. Dela saem muitas outras, bem íngremes, além de lances de escadas e pequenas praças com pavimento de pedra, todas cheias de flores e casas caiadas. É um prazer caminhar nessas ruas, há que se ter pernas fortes, as panturrilhas chiam, mas fui andando e sentando. Minha intenção era andar em volta da muralha, toda ela, e consegui. Tudo bem, levei mais de duas horas, mas valeu a pena. Evitei olhar pra baixo porque sou mole pra sangue e altura, então vamos evitar. Achei o lugar de caminhar estreito, mas não vou aqui botar defeito em muros de sei lá quantos muitos anos. A vista lá do alto é linda, dá pra se ver a área rural em volta. Um pai, meio riponga, quer tirar foto do filhinho e minha barriga esfria. Menino é bicho doido, vai que escorrega e cai lá embaixo? Desvio o olhar, nem quero ver. O pai nem lhe dá a mão e a criança vai sozinha encostar-se ao muro. Afe.. Tiro foto dos dois e me mando.
Enquanto dou a volta na muralha preciso pedir licença para um mancebo e logo vi que era mineiro. Ueba, peço uma foto e engatamos num ótimo papo que mineiro é outra coisa, né? E o tal Francisco ainda é de Beagá, minha cidade. Com aquele jeitão, bem conhecido por mim, já foi reclamando da mãe, que ele queria andar mais em Óbidos e ela queria era ir logo pra Fátima. Ele irritado, está adorando o lugar, mas vamos andando e ele reclamando. A senhorinha está na cadeira de rodas e tem 90 anos. E ainda machucou o joelho na viagem, mas quer ir a Fátima e ele vai.
Resolvo parar pra tomar o licor de ginjinha, feito de cerejas. Tem uma plaquinha que diz: beba o licor e coma o copo. Claro que eu quis, o copo era de chocolate, mas pequeno. Que combinação perfeita... O sabor da cereja, alcoolizada... rs, e o chocolate daqueles bons.. nham... nham... Fui embora correndo de medo de repetir.
Uma particularidade nos portugueses: tratam muito bem as crianças, brincam e conversam com elas todo o tempo. Elas vão aos restaurantes com os pais, nos almoços, jantares, estão sempre por perto. Os donos dos restaurantes lhes dão enorme atenção e percebo um carinho tão grande, carinho de verdade mesmo, não é comercial. Vejo esse comportamento também nas praças, parques, em todos os lugares. Crescem meigas e educadas. Muito lindo isso.
Noto também que tanto os homens quanto as mulheres dão bronca nos parceiros muito facilmente, principalmente os mais idosos. Muito mais que no Brasil, mas parece ser normal por aqui. Nós, brasileiros, se levarmos uma bronca dessas dos nossos amados, afe Maria, emburramos de verdade.
Tasca Torta – O restaurante que escolhi em Óbidos. Lugar simpático, o moço que me atendeu era muito acolhedor, bem preparado pra atender ao turista. Eu queria conhecer a “espetada” que é muito boa. Num espeto grande imaginem aquela parte do porco que fica na barriga, pedaços macios e bem temperados e entre eles pimentos (pimentões) e cebolas, tudo assado. Por cima folhas frescas de alecrim e salsa. Tomates partidos ao meio assados com a carne. Como o chef me ouviu dizer que não queria arroz e nem batatas ele fez um arranjo delicioso – parece anguzinho frito de São Paulo, ou seja, polenta, mas é bem mais gostoso. Fez uma salada verde e salpicou sementes de romã. Gente, deu um sabor que não imaginam. Nem o cachorro comeu porque não sobrou nadinha. O atendimento foi ótimo, recomendo.
Pago, agradeço e vou andando, já saindo da cidade murada. Como sempre paro numa loja pra comprar meu imãzinho de geladeira. Os comerciantes das cidades do interior são bons de papo e fico por ali de prosa com a senhorinha, mais ou menos da idade da mamãe, trabalhando sozinha. Eu falo que esses portugueses são trabalhadores, gente, tanto os novos quanto os muito idosos. E a senhora vai me falando que o país está cheio de imigrantes e que ela não é contra, já que muitos portugueses foram para o Brasil, mas que os brasileiros são maus. E vai me contando os crimes que cometeram por aqui, muito assustada. E me fala assim: cuidado com os “escuros”. Mal sabe ela que “os claros” também podem ser muito maus, mas não falo. Concordo, pago e me despeço.
Desço para pegar o ônibus. No ponto duas lindas moças japonesas e já fiquei grilada: putzgrila, será que terei que falar japonês também??? Não deu outra. As duas queriam saber se o ônibus pra Lisboa parava ali. A única palavra que entendi foi Lisboa e atravessei a rua pra me informar com as pessoas que aguardavam e, com o meu japonês fantástico (aquele com muitos gestos), disse-lhes que atravessassem a rua pra pegar o tal expresso. Elas ficaram tão felizes com a informação, e porque nos entendemos, que as duas começaram a bater palmas pra mim. Foi muito legal. Em seguida senta um casal da Bélgica ao meu lado e conversa vai, conversa vem, (tão duvidando?) trocamos opiniões sobre a cidade. Ela me diz que achou bonita, mas muito turística. Uai, penso eu, algum problema? Turismo é importante, não tira a beleza de nada e ainda traz dinheiro pro país. Estamos muito acostumados a isso no Brasil. Não entendi o que ela quis dizer, vocês entenderam? Por favor, dêem seus pareceres. (Nota de Wanda Saramago: a belga falava português razoavelmente).
Volto pra Leiria. Amanhã irei pra Porto.
Quando chego ao hotel a rata do dia: Descubro que tranquei a mala com as duas chaves do cadeado dentro. Mãe do Túlio mesmo e me pergunto: será que o Thiago é meu filho mesmo ou trocaram ele no hospital porque ele não faria uma cagada dessas. Aciono o serviço do hotel. Em meia hora resolveram meu problema destruindo o cadeado, mas há destruições que são para o bem e essa foi uma. Não cobraram nada pelo serviço.
Obs.: O Thiago é meu filho sim e de mim só puxou as boas qualidades... rs... E vejam a placa, até uma casa aqui ele tem!
E os gatinhos que encontrei, bonitinhos demais.
Inté qualquer hora...
Muitos beijos recheados de vinho, bacalhau e chocolateeeeee.
3415,3435 3457 3462 3489 3491 3522
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