sexta-feira, 8 de julho de 2011

Braga

(Estou dentro do ônibus indo pra Lisboa e aproveito pra atualizar as notícias e estas são de 13.06)

Dia de Santo Antônio, aniversário da vó Tonha, sempre me lembro de tanto que mamãe falou.
Então sigo para Braga a ver se reza mesmo. Saio da região do Porto e vou agora para o Minho e Trás-os-Montes.
Faz frio, mas visto o casaco, pego o metrô, estação linda São Bento, e comboio. Estou tentando dizer as palavras como são aqui porque cada vez que digo “trem” o povo faz “ahn?”. Bom que meus leitores vão aprendendo que, quando aqui chegarem, tudo será mais fácil pra todo mundo. Amém.
Vou prestando atenção à estrada. A terra do Minho é fértil e bastante cultivada. Dá pra ver as vinhas apoiadas em granito – elas que dão origem ao vinho verde da região, levemente frisante, aquele que eu mais gostei até agora. Bem verdade que não provei muitos, mas este é delicado e, geladinho, vai muito bem. Eu é que não vou depois que o bebo.. risos. Vou sendo levada e amparada pelo meu anjinho da guarda que é muito bacana comigo.
Começo pela Praça da República que está toda enfeitada para Santo Antônio, festa que aqui em Portugal é muito celebrada, aliás, todas as juninas. A praça é encantadora, sinos a todo o momento enchem de belos sons o ambiente. Muitas pessoas sentadas nas esplanadas - que são os bares com mesas e cadeiras do lado de fora. Fico andando, admirando e tirando fotos dos prédios, cafés, igrejas, flores, bichos, tudo. E a cabeça pensando... Como tem pessoas idosas por todo lugar que ando, sinal que viver nesse país é sinônimo de vida longa, quero dizer, qualidade de vida, porque os de mais idade estão ativos, interagindo com as pessoas e, os mais tímidos, com o ambiente. Isso é maravilhoso. Não estão tristes dentro de suas casas. No Brasil é espantoso como as pessoas mais velhas são mais decadentes, os filhos quando não as deixam de lado estão sempre tomando conta daquele jeito arrogante, invertendo as posições, querendo ser pais dos seus pais. Acho um absurdo os filhos fazerem isso e os pais consentirem nisso. Pessoas que lutaram pra criar esses mesmos filhos, ainda lúcidas, mas que vão se encolhendo diante da tirania dos mais novos. Bem, mas um dia serão velhos também e ensinando seus filhos esse modelo horroroso terão o mesmo tratamento que ora dão aos que lhes presentearam com a vida. Pra mim isso não é cuidar, não é gostar, é tolher, cercear a liberdade, matar a pessoa. (puta merda, fui longe agora, sorry, mas é minha mente que está pensando e sempre questionou isso).
De repente um burburinho e muitas crianças dos 4 aos 14 anos mais ou menos chegam à praça. Bem arrumadas, com lindos vestidinhos. Grupos de vestido rosa, outros de verde, amarelo, a coisa mais bonita desse mundo, gente. Não estão vestidas que nem as nossas ao estilo caipira, nem poderiam estar, claro, estou em outro país. As professoras estão junto e meninos e meninas de mãos dadas começam a dançar ao som de uma música sofrível que sai de um carro. Exigente que sou, por causa desse meu ouvido que capta todo e qualquer ruído e também os desafinos do mundo, lamento a falta de sintonia entre a beleza das crianças e o barulho que sai do carro. Sim, aquilo não é música, faça-me o favor. Fosse eu à frente desse evento não permitiria de jeito nenhum um descaso desses, mas de todo jeito foi muito bonito. Até fiz um vídeo que infelizmente não dá pra colocar aqui.
Entro em algumas igrejas e constato: sim, Braga reza e muito. Só hoje já assisti a três pedaços de missa, igrejas cheias, sinto que estou perturbando a paz dos que oram, mas procuro ser o mais silenciosa e discreta possível. Não dá pra não tirar fotos, é tudo tão bonito... O ouro que temos em Ouro Preto nem passa perto do tantão de ouro que tem aqui. Gente, não estou querendo dizer nada com isso.. Prestenção... Inclusive muitas igrejas daqui foram construídas muito, muito antes do descobrimento do Brasil.
Braga, a Bracara Augusta dos romanos tem longa história, boa parte dela ligada à da Igreja Católica em Portugal desde a reconquista cristã do século 11. A cidade era provavelmente um assentamento celta. Depois de longo período de ocupação romana caiu nas mãos dos suevos e visigodos antes de ser conquistada pelos mouros. Recuperada pelos cristãos em 1070, seus arcebispos fizeram forte pressão para serem reconhecidos como Primazes das Espanhas, a mais importante posição religiosa ibérica, contra os rivais de Toledo e Tarragona. (pesquisas internet).
Braga ainda é a sede dos arcebispos portugueses, e as suas procissões religiosas e celebrações estão entre as mais fervorosas do país.
Entro na catedral, a Sé. Só ao vivo, não dá pra descrever, são muitos os detalhes. Data de 1070. O interior não é grande... Os vitrais são antiquíssimos, há ricos entalhes barrocos e novamente o estilo manuelino que tanto tem me encantado pela delicadeza. Vejo uma estátua da Virgem, do século XIV e o altar esculpido com cenas da Ascensão. E muitos azulejos e trombetas e anjos e ouro. Desço e chego a um pátio rodeado por três capelas e entro na mais importante: A Capela dos Reis. Nela estão os túmulos de dom Henrique da Borgonha (fundador da catedral) e sua mulher Tareja – pais de Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal.
Vou andando rumo a não sei onde porque me dá imenso prazer me locomover por lugares que nunca vi. Primeiro café que vejo, entro, bebo água, peço um garoto clarinho. E a jovem de quase 40 me pergunta: “está viajando sozinha”? Respondo afirmativamente e ela: “quando será que poderei fazer isso!” Eu lhe digo que esse dia chegará, com certeza, mas ela não acredita muito. Peço informações e vou andando já com um rumo: quero ir à igreja Bom Jesus do Monte, uma das construções mais famosas de Portugal. Não dá pra ir a pé, pego o autocarro que me deixa quase lá em cima, ainda tenho que pegar o funicular e pego. A igreja é Imponente, mágica. Tem uma dupla escadaria e a cada patamar cenas da vida e sacrifício do Cristo. Pode-se subir pelas escadas (há que ter pernas e joelhos fortes) ou por um caminho sagrado ladeado por capelas com painéis mostrando cenas da Paixão de Cristo. São redondas, muito bonitas e velas acesas lá dentro, muitas velas. Cada um dos patamares da escada tem uma fonte que é para relembrar as cinco feridas do Cristo, os seis sentidos e as três Virtudes. Alguns peregrinos sobem de joelhos (meu Deus!), mas eu vim apenas para conhecer a igreja, apreciar a vista, os bosques e jardins. Como sempre o ar é muito puro e há alguns turistas admirando e fotografando que nem eu. A vista lá do alto é bem bacana e fico por ali um bom tempo. Admiro os profetas ( lembram os de Congonhas). Quando resolvo descer o faço pelas escadas e paro em cada patamar para admirar as fontes e capelas. E vou descendo. Em volta muito verde, pássaros cantando, penso que já morri e tou é no céu... risos... Lembro-me do Saramago no seu livro Viagem a Portugal que diz: ”Viajar deveria ser outro concerto, estar mais e andar menos”. E não é que ele me plagiou? Porque antes de vir pra cá, e de lê-lo, eu não tinha grandes planos de sair conhecendo montes de lugares, fazendo maratona e até brincamos eu e os filhos que iria “cochilar em euros”. E estou mesmo, não todos os dias, mas se estiver cansada escuto meu corpo e durmo mesmo.
Então me sentei porque são muitas as escadas e descer também me cansa. De vez em quando um casal de turistas passa por mim. Demoro pra chegar lá embaixo e não queria ir embora dali, mas vou. Deixo o local com a alma leve, o lugar mexeu comigo. É grandioso!
Agora é hora de comprar meu costumeiro imãzinho de geladeira e entro num comércio. O dono é bem jovem, pouco mais de 30 anos e engatamos no papo de sempre: a crise em Portugal. É outro portuga que pensa que foi o Lula quem deu jeito no país, mas eu explico que não: foi o Fernando Henrique o maior responsável, apesar de ter levado muitos funcionários do Banco do Brasil como eu a mudar totalmente o estilo de vida. Ensinou-nos a duras penas a viver com menos, a eliminar os supérfluos (que são tão bons), a trabalhar muitas vezes de 8h da manhã até às 23h sem ganhar hora extra, a cortar escola particular dos filhos, viagens de férias, restaurantes, tv a cabo, etc. Foram oito anos muito difíceis e falo isso pra ele. Percebo os portugueses apavorados com a crise e ao conversar com alguns, que venho travando conhecimento, quando menciono isso, me dizem que os brasileiros são mais otimistas e que os portugueses não estão preparados para ficar sem tantas facilidades. Falo do meu encantamento por Portugal e ele me diz: “Chegastes agora, se ficares três meses por aqui mudas de ideia”. Espero que não.
Estou adorando Braga.
Vou almoçar e escolho o Café Astória. Grã-fino demais, decoração em preto e dourado. Na mesa ao lado uma senhorinha só e como estou também por que não conversar um tiquinho? Mineira que sou puxo conversa. Ela me lembra as tias de Oliveira, aquelas mais sérias, mais caladas. O papo custa a engrenar, mas estou com vontade de trocar um dedinho de prosa e insisto. E ela começa a me falar que nasceu no Brasil, no Rio de Janeiro, mas veio morar em Portugal com 4 anos. Seus pais são portugueses. Está aposentada, foi professora primária e vai me dando as dicas do que devo conhecer na cidade.
Comidinha chega, peço licença e primeiro como com os olhos o prato do dia: Bacalhau com castanhas, muito, muito azeite. Antes teve uma entrada que belisquei, estômago anda pesado aqui, pretendo mudar radicalmente a partir da semana que vem, claro, que essas decisões difíceis precisam ser digeridas devagarinho que é pra não criar traumas.. Risos.
Depois é andar pra deixar as calorias pelo caminho, olhar as “montras” (vitrines, lembram?).
Tinha planejado ir a Guimarães ainda hoje, mas encantei-me tanto com a cidade que resolvi aproveitar e andar bastante, então irei em outra oportunidade, mas não vai demorar, afinal Portugal nasceu ali.
Quando chego ao hotel converso com Paulinha e Thiago, matamos um pouco as saudades.
E cama que amanhã... amanhã... amanhã? Amanhã é outro dia e só quando acordar, se acordar no planeta Terra, é que saberei o que fazer.
Besos... Muchos...
RATA DO DIA
ENTRO NUM BAR PRA COMPRAR ÁGUA... O MOÇO ME ATENDE COM UM JEITO MEIO BRASILEIRO DE FALAR.. A ANTA AQUI, BOCA DE SACOLA, PERGUNTA: É BRASILEIRO? E ELE: NÃOOOOO. SOU PORTUGUÊS E DETESTO OS BRASILEIROS. E EU FALO: E EU ESTOU ADORANDO OS PORTUGUESES TODOS. ELE SORRI, FICA MAIS SIMPÁTICO, CONVERSAMOS UM POUQUINHO.
AI, AI, AI... PAGO E VOU EMBORA.

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